André Barcinski

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Ciclofaixa da Paulista: quem ganha mais, o povo ou o patrocinador?

Por Andre Barcinski
06/09/12 07:05

 

 

 

 

 

 

 

 

Domingo foi inaugurada uma faixa para ciclistas na Avenida Paulista, em São Paulo.

Aos domingos e feriados, de 7 às 16h, o ciclista poderá percorrer 5 km ao longo da Paulista (2,5 km em cada sentido).

É um trajeto ridiculamente pequeno, mas digno de elogios devido à escassez de ciclofaixas na cidade. Que venham mais.

O que me chamou a atenção, mais que a inauguração da faixa, foi o fato de ela ter sido custeada com o patrocínio de uma empresa de seguros.

No site da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), o texto que informa sobre a inauguração da ciclovia cita, logo no segundo parágrafo, o nome da empresa patrocinadora (veja aqui).

OK, sou a favor de parcerias entre o público e o privado. Mas o que está acontecendo em São Paulo já deixou de ser apenas uma “parceria”: a cidade está sendo doada a empresas privadas.

Os moradores de São Paulo não pagam impostos altíssimos? Então por que a prefeitura precisa de dinheiro privado para fazer uma ciclofaixa?

Não fui à inauguração da tal faixa, mas as fotos dizem muito: ciclistas passeando felizes, ao lado de “monitores” vestidos com camisetas da tal empresa e de placas com o logotipo da mesma.

Será que nada de bom e novo que é feito em São Paulo pode ser realizado só pelo poder público? Tudo tem de ser uma jogada de marketing? É tão caro para a prefeitura pintar uma faixa no chão e usar a CET para orientar os motoristas?

Há tempos, a cidade vem parecendo, cada vez mais, um shopping a céu aberto.

Como disse, sou a favor de o poder público fazer parcerias com empresas privadas. Mas as ruas são públicas, as ciclofaixas também, e não devem ser usadas como vitrine para ações de marketing de ninguém.

No Brasil, o limite entre o público e o privado está sumindo. E a razão é simples: nossos impostos são tão mal usados, que agradecemos quando uma empresa privada faz o que deveria ser responsabilidade do poder público.

Eu gostaria de pedalar numa ciclofaixa pública. Posso?

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108 comentários feitos no blog

  1. alexandre manisck comentou em 12/09/12 at 14:01

    Para seu conhecimento faço parte da equipe que criou o projeto da CicloFaixa de Lazer. Ela não começou como um projeto público e sim como privado a pedido deste patrocinador que você não cita.
    Com a ajuda e apoio do secretário dos esportes da época conseguimos tornar o projeto realidade. E devido à aceitação popular foi crescendo.
    E sim, ele custa bem caro, é uma operação gigante e a visibilidade do patrocinador é ridícula perante seus gastos. Ele ganharia mais anunciando no seu jornal ou na tv. Mas preferiu dar um presente à cidade de São Paulo. O mesmo que também deu ao Rio de Janeiro a àrvore de Natal da Lagoa.
    Procure se informar com a CET, com a Secretaria dos Transportes, com o patrocinador e com a organização antes de criticar um projeto que não é ridículamente pequeno porque junto com a Paulista já soma 72Km em três anos.
    Procure saber quantas bicicletas circulam, procure saber porque a prefeitura não faz sozinha e porque ainda temos tão poucas ciclovias. E procure saber o quanto o interesse público pelo assunto mudou depois da iniciativa desse patrocinador.

  2. leonardo comentou em 11/09/12 at 10:56

    Talvez esse vídeo.. um tanto longo ajude a entender certos tipos e situações tão comuns em SP hoje em dia:

    http://classemediasofre.tumblr.com/post/30602700886/mais-um-sofrimento-pra-gente-marilenas-chauis-nos

  3. Dum comentou em 08/09/12 at 12:54

    Essas ciclofaixas são uma demagogia. Ciclovias são separadas e mais estreitas, como em Barcelona, Paris, Amsterdam e outras cidades. O modelo adotado em São Paulo é ridículo, tosco, absurdo. Fora que, ao incentivar ciclistas por motivos políticos, incita-os a cometerem infrações graves, como andar pela contra-mão, passar o semáforo no vermelho, parar na faixa de pedestres e ainda andar pelas calçadas. Eles acham que podem tudo e nem acessórios de segurança usam.

  4. Augusto dos Anjos II comentou em 07/09/12 at 3:49

    Deixa ver se eu entendi.
    O atual prefeito fez uma baita campanha para arrancar outdoors que poluíam visuamente a cidade.
    E agora ele enche as ciclovias de outdoors humanos?
    É… vou contunuar sem entender.

    • Raphael comentou em 09/09/12 at 12:00

      Pensei a mesma coisa! E provavelmente, não por acaso, não só camisetas e placas com o logotipo do banco fazem sua propaganda, mas até a sinalização tem as cores da empresa. Parece bobo, mas tem cara de ser condição imposta pelo privado ao poder público.

    • Barcos comentou em 09/09/12 at 23:04

      o pior é ganhar multa de R$ 10.000 por uma placa de estacionamento de 2,0 m sem cadan. kibessab cuzao!

  5. Carlos comentou em 06/09/12 at 20:34

    Mais absurdo que isso foi a ciclofaixa que inventaram no Centro Velho, onde trabalho. Fica simplesmente na calçada em alguns pontos e no calçadão, em outros. Já quase fui atropelado por uma bicicleta, um dia desses. Imagina se isso vira moda, agora os pedestres, a parte mais fraca dessa história, vai ter que pagar o pato também. Viva o senhor Kassab E pior que paulistano não aprende, já vão colocar outro picareta no poder.

    • Eurico comentou em 11/09/12 at 15:35

      é, realmente o ‘*quase* atropelamento de pedestres por bicicletas’ é um problema público importantíssimo nas grandes cidades. Posso ouvir o clamor popular por uma solução para esse verdadeiro genocídio.

  6. Mony comentou em 06/09/12 at 19:57

    Eu estive na ciclofaixa para conhecer e testar. Acho bacana. Mas tem um fator também que não vi ninguém comentar: fechar uma faixa piora o trânsito nas outras. Ok, nenhuma novidade. Porém isso me fez ter a sensação de que em 2 voltas na Paulista eu tenha fumado o equivalente a 40 maços de cigarro em 30 minutos.

    • Eurico comentou em 11/09/12 at 15:45

      Isso quando há as ilhas no meio da via, inacessíveis ao uso por causa daquelas enormes caixas de areia/jardins malcuidados e feios, e perfeitamente inúteis. Não há nenhum motivo prático para se preservar aquilo em um espaço público.
      A solução ideal seria a abertura de ciclovias naquele espaço, separando, de fato, os carros das bicicletas.
      É uma ilusão que não resiste a 3 segundos de análise pensar que os carros e as bicicletas podem conviver nas mesmas vias, se tocando.
      A bicicleta está muito mais para um pedestre que para um veículo motorizado de uma tonelada: o carro TOCA uma bicicleta, ou o carro invade o espaço da bicicleta e o ciclista morre, fim.

  7. André Machado comentou em 06/09/12 at 18:45

    O problema é que muitos governantes ( e ua boa parcela do povo, principalmente os mais velhos e cabeça-dura) tratam a bicicleta como um mero brinquedo.

    Ontem o tema do Manhã Bandeirantes era a nova ciclofaixa, e de certa forma a opinião do âncora do programa reflete muito esse pensamento intolerante e arcaico sobre o tema.

    Pra ele, usar uma faixa da Paulista nos domingos é um absurdo, é punir o povo que quer passear com seu carro por lá e não pode. E que o “ideal” é proibir bicicletas nas ruas e liberar apenas em parques, e que se é pra por bike na rua, que elas tenham placas e paguem ipva como os donos de carros.

    Os caras não entendem que a questão não é pagar ou deixar de pagar e aderir ao sistema, a questão é incentivar cada vez mais o transporte público ou alternativos e cada vez menos o uso de transporte com os carros de passeio.

    O poder público não faz muito pra mudar esse cenário, quando faz é dessa forma tímida, como se tivesse medo de desagradar essa parcela do povo que citei acima. Em contrapartida essa mesma parcela do povo rejeita as bicicletas e acham “frescura”, “coisa de gente mala e sem noção” com o único intuito de encher o saco do “povo trabalhador”.

    []‘s

    • Eurico comentou em 11/09/12 at 15:38

      Realmente! É a mentalidade de “usa metrô ou bicicleta ou ônibus é menos gente e cidadão que quem tem carro”; é aquele afã típico de proibir o que é dos outros.
      Gente fina é outra coisa, de fato.

  8. João comentou em 06/09/12 at 17:01

    Viva a Tucanolândia e seu Imperador Kassab I

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