Livro de Neil Young é bagunçado como ele
19/10/12 07:05
Quem acompanha o blog sabe que eu idolatro Neil Young.
Acho Young um artista imprevisível e dono de uma visão particular do mundo, capaz de criar imagens tão lúdicas quanto fantasmagóricas em suas canções. Suas letras são carregadas de simbologia e mensagens crípticas, que podem significar mil coisas. Um gênio.
O problema é que todas essas qualidades se manifestaram também em sua nova empreitada, a de biógrafo. E, convenhamos, a pior coisa que um biógrafo pode ser é pouco objetivo.
“Neil Young – A Autobiografia”, que acaba de sair no Brasil, é uma decepção. Na verdade, quem conhece a obra de Young não poderia esperar nada diferente.
Não dá para exigir objetividade e imparcialidade de um sujeito que foi processado pela própria gravadora por fazer música propositalmente anticomercial, que vem iludindo seus fãs há décadas com promessas de relançamentos que nunca chegam, e que tentou impedir uma biografia com a qual colaborou por anos (“Shakey”, de Jimmy McDonough, o melhor livro sobre Young) .
Young nunca fez nada de forma simples e ordeira. Sempre brigou com gravadoras, lançou discos clássicos (“On the Beach”) só para proibir sua reedição por 30 anos, brigou e fez as pazes e brigou novamente com zilhões de amigos e colaboradores. Não é um sujeito dos mais fáceis.
Sua autobiografia é exatamente assim: uma bagunça.
Para começar, Young optou por escrever de forma não cronológica, com capítulos (são 68!) que viajam no tempo. Mas nem nos próprios capítulos ele consegue se limitar a um determinado período.
Um capítulo pode começar falando de sua infância no Canadá, dar um salto de 20 anos no tempo para falar de sua obsessão por miniaturas de trens, e terminar com a descrição da gravação de um disco nos anos 2000.
Figuras importantes em sua vida – familiares, músicos, produtores, empresários – surgem e somem da narrativa, muitas vezes sem uma descrição elucidativa para o leitor.
Passagens fundamentais de sua carreira são contadas de forma superficial. Ele pouco fala da gravação de seus discos e passa rapidamente pelas lendárias brigas que teve com o grupo Buffalo Springfield e com Crosby, Stills e Nash.
A impressão é que Young fez um diário, depois jogou todas as páginas no chão e colou-as no livro, sem nenhuma ordem.
Claro que há muita coisa interessante para os fãs. Sua relação com a família – ele tem dois filhos com paralisia cerebral – é contada de maneira tocante, assim como o amor pelo pai, um famoso autor e jornalista canadense.
Mas, para quem não conhece tanto a obra dele e quer saber mais, esta autobiografia não é o melhor lugar para começar. Infelizmente.
Já sacou o véio no twitter, Barça? Com direito a toco no Bono haha. Check it out: http://www.rollingstone.com/music/news/neil-young-ribs-fans-bono-during-twitter-q-a-20121024
Sei lá se fui só eu que li e gostei, mas acabei de ler a autobiografia do Sting e gostei bastante. Talvez por ter ouvido o Police mais do que qualquer outra banda até a adolescência, li em uma noite. Quanto ao Neil Young, o que ele tem de mais sublime está dito em sua música. O último discão está aí e não me deixa mentir.
Esse negócio de autobiografia é complicado.
Barcinsky disse bem: a do Agassi, entregue a um ghost writer, de cujo livro (“Bar doce lar”) o Agassi tinha gostado muito, é sensacional.
Tem a do Miles Davis também, que é muito boa, escrita pelo Quincy Troupe. Mas segundo um outro biógrafo do Miles Davis, o Jack Chambers (autor de “Milestones”), Quincy sofreu o pão que o diabo amassou pra escrever o livro, por causa do comportamento errático do Miles, a sua crescente falta de colaboração, contrariando a ideia inicial. Chambers alega que o Quincy
foi obrigado a preencher as lacunas retirando trechos do próprio livro dele, Chambers, sem dar o devido crédito. Chambers, no entanto, não se diz ofendido, e sim lisonjeado por ter sido fonte de informação pruma obra sobre um artista que admira muito. No caso, então,
não é realmente uma autobiografia. É uma espécie de colagem.
Barça, tirado lá da página 144: “Há muito assunto a cobrir, e isso é algo que nunca fiz antes. Além disso, não estou interessado na forma pela forma. Então, se você vem tendo dificuldade para me ler, entregue este livro para outra pessoa. Fim de capítulo.”.
Estou gostando de ler, mesmo me confundido com as referências casuais às pessoas e lugares.
André,
você já reparou que a música “Segredos” de Frejat é praticamente uma versão de “Lookin for a love” do Zuma? Até a letra parece copiada.