Russ Meyer, o homem que sujou a América
29/11/12 07:05
Estarei fora até 3/12. Até lá, vou republicar alguns textos desses últimos dois anos e meio. Infelizmente, não poderei moderar os comentários, que só serão publicados em 3/12, quando o blog volta com textos inéditos.
O Walt Disney do sexo, o Fellini do couro negro, o homem que criou o sonho molhado da América com suas deusas peitudas rebolando ao som do rock’n’roll imundo enquanto espancavam machos indefesos em estradas poeirentas. Isso é Russ Meyer.
Caso raro de moralista ferrenho que emputecia os moralistas ferrenhos, Meyer levou para as telas suas taras e obsessões. E ajudou a criar uma iconografia do submundo americano que influenciou cineastas (Tarantino, Almodóvar), estilistas (Gaultier) e desenhistas (Crumb).
Por uma dessas grandes coincidências da vida, me correspondo há algum tempo com Jimmy McDonough, um senhor escritor e autor de uma biografia essencial de Neil Young, “Shakey”. Pois McDonough também escreveu “A” biografia de Meyer, “Big Bosoms and Square Jaws”. E aceitou responder a algumas perguntas sobre o homem:
– Quando começou o seu interesse pelos filmes de Russ Meyer?
Frequentando drive-ins em Indiana quando jovem. Um adolescente revoltado e explodindo de hormônios – a vítima perfeita. Vi “Supervixens” e minha cabeça explodiu.
– Você acha que Russ Meyer tinha consciência de que seus filmes se tornariam tão famosos e cultuados?
– Duvido. RM era movido por suas obsessões. Dinheiro, fama, as mulheres de verdade, tudo isso veio de brinde. Russ era como uma criança. Ele só queria fazer o que ele queria fazer. E ele FEZ!
– Por que você acha que seus filmes se tornaram ícones da cultura pop americana?
– Porque os Estados Unidos simbolizavam um certo exagero grandioso. Especialmente no auge de RM. Carros como o Cadillac Eldorado Biarritz, de 1959, que era um brilhante monstro de aço curvo e barbatanas exageradas. Meyer descobriu mulheres que eram o equivalente a esses carros, e criou para elas um altar cinematográfico. Usou também um estilo visual chocante e atraente, chupado de histórias em quadrinhos, que nocauteavam o espectador antes que ele pudesse ver de onde vinha o soco. Se eu morasse num país do Terceiro Mundo e desse de cara com “Supervixens”, provavelmente nadaria pelo Amazonas e daria um jeito de chegar até os Estados Unidos só para conhecer essas mulheres. Infelizmente, a América de Russ Meyer não existe. É só o sonho molhado de um homem. Ou será o seu pesadelo?
– Russ Meyer criou um estilo de cinema muito pessoal, especialmente na escolha de suas atrizes. Você acredita que suas decisões artísticas foram motivadas apenas por suas obsessões pessoais?
– Como RM costumava dizer, ele precisava ”sentir na virilha”. TUDO era pessoal para Russ. Ele babava e suava sobre cada fotograma de seus filmes. A sua maneira de possuir essas mulheres era prendê-las em celulóide. É por isso que suas visões eram tão intoxicantes. E tão infantis.
– Onde podemos ver a influência de Russ Meyer hoje (além de em “À Prova de Morte”, de Tarantino, claro!)?
– É só ver os clips de Lady Gaga. Nos “reality shows” também. Meyer foi o primeiro a explorar esse estilo de edição alucinado. Está em todos os lugares hoje. RM é parte de nosso estofo cultural hoje em dia.
– Em seu livro, você diz que a indústria pornô “passou por cima” de Russ Meyer. O que houve? Ele não conseguiu se adaptar aos novos tempos?
– RM estava interessado na fantasia, não na “realidade” de mostrar sexo. Ele não estava preparado para abrir mão da fantasia para documentar os mecanismos pegajosos da genitália, particularmente abaixo da linha de cintura. O sexo explícito fez os excessos de Meyer parecerem velhos, até ingênuos. Russ Meyer sem fantasia é como “O Mágico de Oz” sem os macacos voadores. Veja um de seus últimos trabalhos, “Pandora Peaks”: o tesão desapareceu, mas a obsessão mamária continua. Mas é tudo que restou, e nesse ponto já se tornou grotesco.
– Se você tivesse de sugerir três filmes de Russ Meyer para quem não assistiu a nenhum, quais seriam?
– “Faster, Pussycat, Kill! Kill!”, “Beyond the Valley of the Dolls” e, só por perversão, “Mondo Topless”. Veja cinco minutes desse filme e você não esquecerá, embora deseje esquecer.
– Quais seus filmes prediletos de Russ Meyer?
– “Faster, Pussycat”, “Common Law Cabin” e “Good Morning… and Goodbye!”. Todos têm a pena venenosa do roteirista John Moran, o colaborador mais desprezado de Russ Meyer. Seus diálogos ácidos são o complemento perfeito para o assalto visual de agressão total de Russ Meyer. Também tenho um fraco por “Mondo Topless”, porque é puro RM, não diluído por coisas como história, significado ou NADA além de gremlins go-go sacudindo suas mamas na sua cara e te desafiando a chegar só… um… pouquinho… mais…perto! Loucura, eu digo! É loucura! Mas que jeito de dizer adeus!
– Quais são seus próximos projetos?
– Estou trabalhando num romance sobre as MINHAS próprias obsessões nojentas. E talvez um livro sobre um crime verdadeiro. Sou muito supersticioso para dizer mais.
Publicado originalmente em 6/8/2010
Peitos, gasolina, porrada e sangue!
eu desconhecia russ meyer. santa ignorância! gracias, barcinski, por SEMPRE trazer coisas/assuntos/reflexões acerca de coisas que muito me comprazem. teu blog é uma ilha de dicas. abraço!
Assista “Faster, Pussycat! Kill! Kill!”, dua vida vai mudar. Pra melhor.