Semana passada, fomos a Ubatuba fechar um negócio. Era algo que estávamos querendo fazer há um bom tempo, e o clima aqui em casa era de alegria.
No caminho a Ubatuba, pela Rio-Santos, começaram os problemas: na estrada, uma caminhonete ziguezagueava perigosamente pela pista. Parecia que o motorista estava falando ao celular ou olhando a paisagem. A caminhonete era do “Departamento de Biologia” de uma conhecida universidade federal brasileira.
Tentamos ultrapassar a caminhonete duas vezes, e duas vezes o motorista nos barrou. Buzinamos para alertá-lo. Na terceira vez que tentamos ultrapassá-lo, ele fechou o caminho novamente. Ficou claro que estava fazendo de propósito.
Depois de alguns minutos, conseguimos ultrapassar a caminhonete. Havia quatro pessoas no carro. Pareciam estar se divertindo com a situação. Repito: estavam dentro de um veículo pertencente a uma universidade pública.
Chegamos a Ubatuba e fechamos o negócio. Estávamos tão contentes que esquecemos o episódio desagradável com a caminhonete.
Quando saíamos do local, ouvimos um som de freada, seguido do barulho de uma colisão. O som vinha da Rio-Santos. Estávamos a uns 300 metros da estrada, e árvores impediam a visão. Mas pudemos ver uma fumaça branca saindo do local. Chamamos o 190 imediatamente.
A pessoa com quem havíamos acabado de fechar negócio disse:
- Ih, mais um motoqueiro morto!
- Como você sabe?
- Você vai achar que é exagero, mas só ano passado morreram oito motoqueiros nessa mesma curva.
Entramos no carro para voltar para casa. Seria inevitável passar pelo local do acidente. Em poucos minutos, dezenas de pessoas haviam saído de suas casas e trabalhos para ver o ocorrido. Algumas pessoas se desesperavam. Aparentemente, um dos envolvidos no desastre morava no bairro.
Naquela área, próxima ao Saco da Ribeira, a Rio-Santos é perigosíssima, cheia de buracos e pessimamente sinalizada. Muitas comunidades cresceram ao longo da estrada e o acostamento virou calçada, lotado de bicicletas, alunos voltando da escola a pé e gente indo para o trabalho. Não se vê um ciclista andando de capacete. Motoristas zunem a cem por hora, disputando espaço com motociclistas insanos. Pessoas atravessam a via perto de curvas, carregando bebês no colo. É cada um por si.
Passamos ao lado do acidente. Havia uma caminhonete de dois lugares, com a frente toda destruída. Um plástico preto cobria o vidro da frente do carro, para esconder o morto (ou mortos?). No chão, havia uma pilha de ferro retorcido, que minutos antes fora uma motocicleta. Ao lado, outro plástico preto, cobrindo outro cadáver. Os vizinhos chegavam, reconheciam o morto e caíam de joelhos no chão, chorando.
Ficamos arrasados. Minha mulher teve dificuldade para continuar a dirigir. Não andamos nem 500 metros quando, depois de uma curva, vimos outra cena pavorosa.
No acostamento, do lado direito de nosso carro, havia um Fusca com a frente amassada. A alguns metros, uma bicicleta caída no chão e um homem de bruços, imóvel. Ajoelhada ao lado do homem, uma menina, que não deveria ter mais de 13 ou 14 anos, gritava em desespero. Não foi difícil entender o que aconteceu: o Fusca fez uma conversão à esquerda sem parar no acostamento, cruzando a pista, e pegou a bicicleta de frente. O homem devia estar guiando a bicicleta no acostamento, com a menina na garupa. O acidente ocorreu poucos segundos antes de chegarmos ao local. Ainda vimos o motorista do Fusca saindo do carro para ajudar as vítimas.
Que dia. Sair de casa para fazer uma coisa agradável e ver pessoas perdendo as vidas estupidamente. Numa hora dessas, tudo que você quer é chegar em casa o mais rápido possível, abraçar e beijas os filhos e lembrar como você tem sorte de não ter estado no lugar errado na hora errada.

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