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André Barcinski

Uma Confraria de Tolos

Perfil André Barcinski é crítico da Folha.

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Um dia para esquecer

Semana passada, fomos a Ubatuba fechar um negócio. Era algo que estávamos querendo fazer há um bom tempo, e o clima aqui em casa era de alegria.

No caminho a Ubatuba, pela Rio-Santos, começaram os problemas:  na estrada, uma caminhonete ziguezagueava perigosamente pela pista. Parecia que o motorista estava falando ao celular ou olhando a paisagem. A caminhonete era do “Departamento de Biologia” de uma conhecida universidade federal brasileira.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Tentamos ultrapassar a caminhonete duas vezes, e duas vezes o motorista nos barrou. Buzinamos para alertá-lo. Na terceira vez que tentamos ultrapassá-lo, ele fechou o caminho novamente. Ficou claro que estava fazendo de propósito.

Depois de alguns minutos, conseguimos ultrapassar a caminhonete. Havia quatro pessoas no carro. Pareciam estar se divertindo com a situação. Repito: estavam dentro de um veículo pertencente a uma universidade pública.

Chegamos a Ubatuba e fechamos o negócio. Estávamos tão contentes que esquecemos o episódio desagradável com a caminhonete.

Quando saíamos do local, ouvimos um som de freada, seguido do barulho de uma colisão. O som vinha da Rio-Santos. Estávamos a uns 300 metros da estrada, e árvores impediam a visão. Mas pudemos ver uma fumaça branca saindo do local. Chamamos o 190 imediatamente.

A pessoa com quem havíamos acabado de fechar negócio disse:

- Ih, mais um motoqueiro morto!

- Como você sabe?

- Você vai achar que é exagero, mas só ano passado morreram oito motoqueiros nessa mesma curva.

Entramos no carro para voltar para casa. Seria inevitável passar pelo local do acidente. Em poucos minutos, dezenas de pessoas haviam saído de suas casas e trabalhos para ver o ocorrido. Algumas pessoas se desesperavam. Aparentemente, um dos envolvidos no desastre morava no bairro.

Naquela área, próxima ao Saco da Ribeira, a Rio-Santos é perigosíssima, cheia de buracos e pessimamente sinalizada. Muitas comunidades cresceram ao longo da estrada e o acostamento virou calçada, lotado de bicicletas, alunos voltando da escola a pé e gente indo para o trabalho. Não se vê um ciclista andando de capacete. Motoristas zunem a cem por hora, disputando espaço com motociclistas insanos. Pessoas atravessam a via perto de curvas, carregando bebês no colo. É cada um por si.

Passamos ao lado do acidente. Havia uma caminhonete de dois lugares, com a frente toda destruída. Um plástico preto cobria o vidro da frente do carro, para esconder o morto (ou mortos?). No chão, havia uma pilha de ferro retorcido, que minutos antes fora uma motocicleta. Ao lado, outro plástico preto, cobrindo outro cadáver. Os vizinhos chegavam, reconheciam o morto e caíam de joelhos no chão, chorando.

Ficamos arrasados. Minha mulher teve dificuldade para continuar a dirigir. Não andamos nem 500 metros quando, depois de uma curva, vimos outra cena pavorosa.

No acostamento, do lado direito de nosso carro, havia um Fusca com a frente amassada. A alguns metros, uma bicicleta caída no chão e um homem de bruços, imóvel. Ajoelhada ao lado do homem, uma menina, que não deveria ter mais de 13 ou 14 anos, gritava em desespero. Não foi difícil entender o que aconteceu: o Fusca fez uma conversão à esquerda sem parar no acostamento, cruzando a pista, e pegou a bicicleta de frente. O homem devia estar guiando a bicicleta no acostamento, com a menina na garupa. O acidente ocorreu poucos segundos antes de chegarmos ao local. Ainda vimos o motorista do Fusca saindo do carro para ajudar as vítimas.

Que dia. Sair de casa para fazer uma coisa agradável e ver pessoas perdendo as vidas estupidamente. Numa hora dessas, tudo que você quer é chegar em casa o mais rápido possível, abraçar e beijas os filhos e lembrar como você tem sorte de não ter estado no lugar errado na hora errada.

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Por que artistas se calam quando Roberto Carlos censura?

Roberto Carlos é o maior popstar da história do Brasil. Roberto Carlos é um pioneiro que ajudou a inaugurar o conceito de “música jovem” por aqui. Roberto Carlos é o “Rei”.

Mas alguém precisa avisar a Roberto Carlos que o “Rei” dele vem entre aspas. Ele não é rei de verdade, é só um jeito carinhoso de ressaltar sua importância e influência. E cada vez que Roberto Carlos tenta censurar outro livro, sua “realeza” morre um pouco.

A vítima agora é “Jovem Guarda: Moda, Música e Juventude”, livro de Maíra Zimmermann lançado pela Estação Letras e Cores (leia mais sobre o livro aqui).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Todos lembramos o caso de “Roberto Carlos em Detalhes”, livro de Paulo Cesar de Araújo que os advogados de Roberto conseguiram tirar de circulação.

Eu li o livro de Araújo. É uma pesquisa jornalística séria e bem feita, sem nada que possa ferir o orgulho de ninguém.

Não li o livro de Zimmermann ainda, mas vou comprar meu exemplar hoje mesmo. Não gosto que Roberto Carlos me diga o que posso ou não ler.

Os advogados de Roberto Carlos têm seus argumentos para censurar o livro. Reclamam de uma “caricatura” do cantor na capa: “Fazer aquela caricatura de forma desautorizada viola os direitos de imagem do Roberto”, disse o advogado Marco Antônio Campos. “Não estamos tentando proibir a circulação do livro, não temos nenhuma objeção, nenhuma intenção censória quanto ao conteúdo do livro.” Ah, não?

O empresário de Roberto Carlos, Dody Sirena, diz: “Fazemos isso em situações que não configuram uma homenagem ao Roberto, mas em casos que usam a imagem dele para ganhar dinheiro.” O livro de Zimmermann saiu com uma tiragem de mil exemplares, o que não me parece um grande esquema para “ganhar dinheiro”.

Roberto Carlos precisa disso? Precisa mover céu e terra para intimidar qualquer um que tente escrever sobre ele?

Claro que um artista tem todo o direito de não ter sua imagem explorada comercialmente de forma indevida. Mas desde quando um livro com tiragem de mil exemplares, feito a partir de uma tese de dissertação de mestrado, configura um esquema comercial tão poderoso e maquiavélico?

Roberto Carlos e sua tropa de advogados e empresários usam atalhos jurídicos para praticar censura. Simples assim.

Espanta também o silêncio da classe artística, sempre pronta a fazer abaixo-assinado contra a censura e opressão em outros países, mas que se cala quando um dos seus faz o mesmo.

A verdade é que ainda vivemos na Monarquia. Nosso castelo é o de “Caras”, e os monarcas são Roberto Carlos, Xuxa, Juliana Paes e alguns outros iluminados, seres intocáveis e controladores que ainda não se conformaram com as lições de 1889.

Torço para que o projeto de lei do deputado Newton Lima (PT-SP), que libera a publicação de livros e filmes biográficos sem necessidade de aprovação do contemplado ou de sua família, seja aprovado em breve, para que a nossa realeza suma pela segunda vez.

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Hermes e Renato: a volta dos filhos pródigos

O programa “Hermes e Renato” volta hoje à MTV depois de alguns anos na TV aberta. Quero muito ver. Foi o último programa humorístico da TV que me fez rir.

No início dos anos 2000, quando “Hermes e Renato” estreou na MTV, gostei do esculacho do programa. Sempre curti esse humor brasileiro mais carnavalesco e escrachado, de Grande Otelo vestido de mulher, Costinha de Tarzan, Renato Aragão de Maria Bethânia e Bussunda de Ronaldo Fenômeno. Quando vi “Hermes e Renato”, gostei da tosquice, dos cenários ridículos, das atuações canastronas e do humor desbocado.

 


 

Apesar de curtir o programa, não acho que ele inovou em nada. Todas as piadas eram recicladas de quadros mais antigos. O samba-enredo do “Unidos do Caralho a Quatro” era uma versão “x-rated” do velho “Samba do Crioulo Doido”, de Stanislaw Ponte Preta, e o “Tela Class”, quadro engraçadíssimo em que dublavam filmes antigos, não era novidade: em 1966, Woody Allen fez um filme inteiro assim, “What’s Up, Tiger Lily?”. Claro que Stanislaw e Woody também se inspiraram em outros comediantes mais antigos ainda (aliás, achei curioso quando Marcelo Adnet lançou o “Bonde das Cabeçudas”, em que misturava funk carioca com citação de filósofos, e pouca gente lembrou a “Canção dos Filósofos”, que o Monty Python fizera mais de 40 anos antes).

“Hermes e Renato”, “Pânico” e muitos humoristas surgidos no país dos últimos 10 ou 15 anos são filhos do “Casseta e Planeta”. Até os Cassetas aparecerem, o humor brasileiro era formado por veteranos da TV e teatro: Costinha, Golias, Agildo Ribeiro, Paulo Silvino, Eliezer Motta, Jô Soares, Os Trapalhões, etc. Os Cassetas foram os primeiros não-atores a fazerem sucesso na TV brasileira e inauguraram um tipo de humor mais “jornalístico”, com matérias na rua e pessoas de verdade. Por não serem atores profissionais, tiveram de usar o próprio amadorismo como trunfo. E deu muito certo.

Torço para que “Hermes e Renato” volte bem na MTV. Já estava com saudades do Boça e do palhaço Gozo.

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As tentações do jornalismo Ctrl c + Ctrl v

Costumo receber pedidos de entrevistas de alunos de escolas e universidades. Há alguns meses, fiz duas com o mesmo tema: a carreira de Zé do Caixão.

Sou procurado para falar sobre isso porque escrevi um livro e fiz um filme (ambos em parceria com Ivan Finotti) sobre o Zé.

 

 

 

 

 

 

 

Outro dia, recebi links para os dois trabalhos e percebi que ambos continham os mesmos erros de informação. Na verdade, ambos continham o mesmo parágrafo, que trazia vários erros em datas de lançamento de filmes do cineasta.

Fiz uma busca rápida na Internet e achei a fonte: um blog sobre cinema. Os dois grupos de estudantes haviam copiado o parágrafo inteiro do mesmo blog. E agora, todos – o blog e os dois grupos de alunos – estavam divulgando informações equivocadas.

Está aí o maior perigo da era do jornalismo “Ctrl c + Ctrl V”: a disseminação de informações sem a checagem apropriada.

Comecei a trabalhar em jornais no fim dos anos 80, quando pesquisas em jornais eram feitas no microfilme ou em volumes encadernados de periódicos amarelados. E ninguém pode ter saudade daquela época.

É claro que trabalhar hoje é muito mais fácil e prático. Qualquer informação está acessível em poucos segundos. Mas o trabalho de informar corretamente também se tornou muito mais perigoso e traiçoeiro, por causa da imensa quantidade de mentiras, erros, suposições e boatos que vagam pelo mundo virtual.

Dois exemplos recentes: estou em meio a uma pesquisa sobre música brasileira dos anos 70. Procurei a data de nascimento do músico Robertinho de Recife. A Wikipédia diz que ele nasceu em 1965. Ora, se Robertinho fez parte de bandas de blues nos Estados Unidos no início dos 70, significa que ele tocava com feras em Memphis aos 5 ou 6 anos de idade, o que o tornaria um dos maiores prodígios da história da música.

“Ah, mas a Wikipédia não é confiável”, dirão alguns. E o que é confiável? O site oficial de um artista?

Como explicar então que o site oficial de Jorge Benjor informe que o LP “A Tábua de Esmeralda” foi lançado em 1972, quando o correto é 1974?

Se nem os sites oficiais de artistas trazem informações confiáveis, como saber se uma informação está correta?

O que eu tento fazer – não estou dizendo que é uma regra, é só a minha dica – é ir direto à fonte. Para confirmar a data de nascimento de Robertinho de Recife, por que não ligar para o próprio?

Mas e quando os entrevistados se enganam ou mentem? Não acontece?

Claro que acontece. Fazer pesquisa é igual ao filme “Rashomon”, de Akira Kurosawa: peça a quatro pessoas para contar a mesma história e você terá quatro histórias diferentes.

O segredo é não parar enquanto não tiver esgotado todas as possibilidades de conseguir uma informação válida. É falar com o maior número possível de pessoas, procurar em todos os arquivos e fuçar em todas as coleções. Resumindo: é se esforçar, que é exatamente o que a Internet inspira a não fazer.

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Não perca: TV exibe o pior filme do mundo

A HBO 2 exibe amanhã, às 15h22, “Marina Abramovic – The Artist Is Present”, documentário sobre a cultuada artista performática sérvia. É o pior filme que já vi e absolutamente imperdível (veja outros horários aqui).

“Imperdível” porque acredito que assistir a filmes ruins pode ser didático. Enquanto grandes obras inspiram pelo exemplo, as péssimas o fazem pelo não-exemplo: assista e aprenda como não fazer um filme.

 


 

Brincadeiras à parte, posso dizer que o filme é tão ruim que ficamos até em suspense para ver como terminava. A cada minuto, aumentava a ansiedade aqui em casa: “Não é possível, vai ficar pior ainda?”

Quero deixar uma coisa bem clara: não estou criticando a arte de Marina Abramovic, mas o filme. Confesso que não tenho o menor interesse em “performance art” e vi o filme até para conhecer mais sobre o assunto.

Mas o efeito foi oposto: agora não quero mesmo ouvir falar de nada que se refira a artes performáticas e muito menos a Marina Abramovic.

O filme conta a preparação para uma importante exposição de Abramovic no MoMa, o Museu de Arte Moderna de Nova York. Durante vários meses, a equipe acompanhou a artista e seus incontáveis assistentes.

Na exposição, atores jovens iriam reencenar peças “clássicas” (o termo é da própria Marina) da artista. E ela estrearia uma nova “performance” chamada “A Artista Está Presente”, em que ficaria sentada numa cadeira por três meses, durante o horário de funcionamento do museu, enquanto os visitantes poderiam sentar-se em uma cadeira em frente a ela e ficar olhando para sua cara pelo tempo que quisessem.

O filme é a maior “egotrip” que já vi. Marina Abramovic é uma artista que não fala sobre o mundo, mas sobre como o mundo deve falar sobre ela.

Durante as quase duas horas, a artista é cercada pela mais caricata cambada de puxa-sacos, uma claque que se limita a rir de suas piadas sem graça e achar genial qualquer espirro da iluminada.

Marina não consegue falar nada interessante, apenas platitudes sobre ela mesma, mas ditas com a pompa de quem está prestes a revelar um segredo milenar. Quando alguém avisa que a exposição já chegou a 750 mil visitantes, ela diz: “Mas é quase um milhão!”

O filme não consegue explicar por que Marina Abramovic é tão importante. Há imagens de arquivo de performances antigas em que ela e o então marido, Ulay, dão tabefes na cara um do outro por 14 horas e jejuam por 15 dias em uma mesa de jantar, mas não há uma contextualização que ajude o espectador a entender por que aquilo é tão bom.

Em determinado momento, Marina critica o culto a celebridades no mundo das artes, sem perceber que sua fama, pelo menos a mostrada no filme, se baseia justamente num hype sem vergonha. Para realçar, o documentário mostra astros hollywoodianos como James Franco e Orlando Bloom esperando na fila para poder sentar na frente de Marina por dois minutos. “Eu senti uma conexão profunda com Marina”, diz James Franco. Tá legal.

O filme me lembrou outro exercício ególatra, “Lixo Extraordinário”, supostamente um documentário sobre catadores de lixo no Rio de Janeiro, mas que na verdade é um comercial da bondade do artista plástico Vik Muniz, mostrado como um anjo que desce dos céus para salvar os coitadinhos. Também merece ser visto.

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Então esta é a tal “liberdade de informação”?

Semana passada indiquei aqui no blog o livro “The Soundtrack of My Life”, autobiografia de Clive Davis, um dos executivos mais influentes e polêmicos da música pop.

Um dos primeiros comentários que recebi, poucos minutos depois de o texto ser publicado, trazia um link para que todos pudessem baixar o livro sem pagar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Esta ideia de que tudo é de graça já encheu a paciência. Será que as pessoas têm tanto desprezo por livros que se acham no direito divino de usufruir deles sem pagar?

Escrever sobre esse tema é mexer em vespeiro. Já sei os tipos de comentários que receberei. Boa parte será ao estilo “Robin Hood de laptop”, defendendo a “liberdade de informação” e tachando de “reacionário” qualquer um que tenha opinião diferente.

Outra parte usará o método de intimidação mais comum nas redes sociais, a desqualificação do debatedor: “Olha quem está falando, até parece que ele não baixa nada da Internet…”

Para início de conversa: baixo, sim, muita coisa de graça da Internet. Mas tento usar o bom senso: baixo filmes que não estão disponíveis no Brasil (especialmente documentários, cada vez mais raros por aqui) e discos de bandas novas que me interessam.  E se gosto das bandas, geralmente compro o disco. Posso dizer que nunca comprei tantos discos, filmes e livros e assinei tantas revistas e jornais quanto nos últimos anos.

Já prevejo a réplica: “Quero ver se você liberaria um livro seu…”

Respondo: liberaria sim, dependendo das circunstâncias. Há alguns meses, um leitor escreveu dizendo que não estava encontrando meu livro “Barulho”, que publiquei em 1992. Outro leitor disse que tinha o livro em pdf e perguntou se poderia disponibilizá-lo na rede. Ora, o livro está fora de catálogo e a editora que o publicou nem existe mais. Por que diabos eu seria contra liberá-lo de graça, se isso não vai acarretar prejuízos para a editora que me contratou? Claro que liberei.

Espero receber também vários comentários furibundos me acusando de ser contra a “democratização” da Internet. A esses reclamantes, adianto: acho perfeitamente possível respeitar o direito autoral e defender o direito de todos a uma Internet acessível e de qualidade. Não são coisas excludentes.

Acho que o autor deve ser livre para decidir como sua obra, seja livro, disco, artigo ou filme,  é veiculada. O Radiohead quer vender um CD no esquema “pague quanto acha que vale”? Ótimo. Uma banda quer disponibilizar todos seus discos de graça? Ótimo também.

Vale lembrar que na época em que existia indústria do disco, artistas faziam shows para vender discos, e hoje fazem discos para vender shows. O que explica, em parte, a inflação no preço de shows nos últimos 10 ou 15 anos.

O problema é que nos acostumamos à ideia de que ideias não valem nada. Pagar para ler qualquer coisa é considerado “injusto”. Mas na hora em que alguém explode duas bombas em Boston, onde buscamos informação? No blog de um desses Robin Hoods virtuais ou na CNN?

No documentário “Page One”, sobre o jornal “The New York Times”, há uma cena marcante: David Carr, colunista do jornal, participa de um debate sobre a crise no jornalismo. Um dos debatedores defende a tese de que jornais são “obsoletos” porque todas as informações podem ser encontradas em sites de busca. Para provar, exibe uma folha impressa com a página principal de um desses sites, que traz dezenas de notícias.

Carr pede um intervalo de alguns minutos para continuar o debate. Quando a conversa é reiniciada, ele mostra a mesma folha impressa com a “homepage” do site de notícias, inteiramente recortada e sem conteúdo algum. “Cortei todas as reportagens que foram tiradas de jornais ‘obsoletos’. Como se vê, não sobra muita coisa.”

Para resumir: “agregar” conteúdo é diferente de “produzir” conteúdo.

Em janeiro, o franco-norte-americano André Schiffrin foi ao programa “Roda Viva”, da TV Cultura. Schiffrin é chefe da The New Press, uma editora sem fins lucrativos e mantida por fundações, que publica livros de qualidade que não encontram espaço num mercado que privilegia “best-sellers”.

Na entrevista, Schiffrin falou das propostas que existem para que sites de buscas, como o Google, comecem a pagar pelo uso de conteúdo. Na Alemanha, o governo aprovou uma lei que permite a editoras cobrarem de sites de buscas e outros “agregadores online” (leia mais aqui). O Google, claro, é contra, e começou uma campanha chamada “Defenda Sua Internet”, dizendo que a lei “vai dificultar o fluxo livre de informações”. Só para lembrar: o Google vale 250 bilhões de dólares. Não é uma ONG.

Enquanto legisladores e o Google não chegam a um acordo, os Robin Hoods continuam a roubar dos ricos para dar aos mais ricos ainda. No caso do Brasil, com um agravante: frequentemente usam dinheiro público para organizar debates e eventos para defender que tudo seja de graça. O que está errado nesta equação?

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O canto do cisne de John Huston

Em 1981, John Huston tinha 75 anos e lançou o filme “Fuga para a Vitória”, em que Sylvester Stallone e Pelé comandavam um time de presos de um campo de concentração que vencia um poderoso esquadrão formado por oficiais nazistas. Eu tinha 13 anos e lembro que morri de rir com o abacaxi, especialmente com uma cena em câmera lenta que mostrava um drible circense executado pelo argentino Ardilles.

No ano seguinte, Huston lançou o filme infantil “Annie”, outra bomba. Será que o diretor de “O Falcão Maltês”, “O Tesouro de Sierra Madre”, “Uma Aventura na África” e “The Misfits” terminaria a carreira dirigindo Pelé e Stallone?

Felizmente, Huston tomou jeito, e seus três últimos filmes foram sensacionais: “À Sombra do Vulcão” (1984), “A Honra do Poderoso Prizzi” (1985) e “Os Vivos e os Mortos” (1987).

Hoje, 22h, o Telecine Cult exibe “A Honra do Poderoso Prizzi”. E já sei o que vai acontecer aqui em casa: vamos começar a revê-lo pela enésima vez, “só uns cinco minutinhos…” só para desligar só 130 minutos depois, com os créditos rolando na tela.

 


 

O filme é uma comédia de humor negro sobre gângsteres. A melhor definição foi da crítica Pauline Kael: “é uma mistura de ‘O Poderoso Chefão’ e ‘Os Monstros’.”

Jack Nicholson faz Charlie Partana, matador profissional que trabalha para uma poderosa família de mafiosos. Charlie se apaixona pela fogosa Irene Waker (Kathleen Turner), outra matadora de aluguel. Só que Charlie recebe a missão de matar Irene, enquanto ela é incumbida de dar cabo de Charlie.

Não tenho dúvida de que os Irmãos Coen viram muito esse filme antes de fazer “Fargo”, outra comédia negra sobre crimes e criminosos.

“Prizzi” tem um elenco sensacional. Anjelica Huston ganhou um Oscar pelo filme. E a turma de “mafiosos” que Huston juntou é inigualável: William Hickey, Robert Loggia, Laurence Tierney… Jack Nicholson está impagável.

Bem que alguma emissora poderia fazer uma sessão tripla com os últimos filmes de John Huston. Faz anos que não vejo “À Sombra do Vulcão” e “Os Vivos e os Mortos” na TV. Quem se habilita?

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Confidências do Midas da música pop

Em tempos de música de graça e MP3, ler a autobiografia de Clive Davis é mergulhar numa era extinta, em que poderosos titãs da indústria da música dominavam a Terra. Se a época de Clive era melhor ou pior que hoje, não sei, mas certamente foi um período muito interessante.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O livro chama  The Soundtrack of My Life”, foi escrito em parceria com o jornalista Anthny De Curtis, e é leitura obrigatória para quem quiser conhecer mais sobre a indústria musical dos últimos 50 anos.

Clive Davis foi um dos mais influentes e importantes executivos da música pop. Foi presidente das gravadoras Columbia, Arista e J Records. Trabalhou com Bob Dylan, Janis Joplin, Santana, Bruce Springsteen, Chicago, Grateful Dead, Simon & Garfunkel, Aretha Franklin, Patti Smith e Alicia Keys, entre centenas de outros artistas. Fundou a gravadora LaFace, casa de Usher, Outkast e Toni Braxton e a Bad Boy, casa de Puffy Combs e Notorious B.I.G.

Foi Clive Davis que descobriu uma menina de 19 anos, que se tornaria a cantora de maior sucesso comercial da história: Whitney Houston.

A carreira de Davis também teve seus percalços: ele foi despedido da Columbia Records por suspeita – nunca provada – de ter fraudado a empresa. E era presidente da Arista quando um de seus contratados, a dupla Milli Vanilli, teve de devolver os Grammys que ganhou depois que foi revelado que eles não haviam cantado no disco.

Não leia o livro esperando revelações de bastidores ou histórias de sexo, drogas e rock’n’roll; Clive Davis é respeitoso até demais com os artistas e sempre foi um homem da indústria, capaz de guardar segredos e usá-los quando necessário.

O divertido é ler Clive contando histórias sobre a contratação de Janis Joplin (que sugeriu transar com Clive no escritório da gravadora, para comemorar), ou sobre a insegurança de Bob Dylan com os rumos da própria carreira.

Um dos capítulos mais interessantes é sobre Whitney Houston. Davis rejeita a tese de que teria controlado a carreira de Whitney nos mínimos detalhes. Diz que ela era uma grande artista e dona de seu destino. Mas acaba se traindo ao reproduzir uma longa carta que enviou a Whitney, depois de um de seus primeiros shows, em que “sugere” mudanças no repertório e até na forma com que a cantora se dirige ao público.

Outro trecho de destaque narra a ressurreição da carreira de Santana, com o disco “Supernatural”. E a maior surpresa do livro foi a revelação da bissexualidade de Davis, que em 2004, aos 72 anos, resolveu assumir um relacionamento com outro homem.

“The Soundtrack of My Life” ainda não saiu no Brasil, e espero que não demore. Mesmo que o livro adoce a realidade para tornar Davis um sujeito muito mais simpático e justo do que outros relatos fazem supor, é um registro importante sobre um titã da indústria da música.

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Já ouviu Thee Oh Sees? Está esperando o quê?

Minha “nova” banda favorita existe há pelo menos dez anos.

Ok, não me xinguem, só comecei a ouvir Thee Oh Sees há pouco tempo. Muita coisa na fila para ouvir, pouco tempo livre, muitas dicas de amigos e leitores, e o grupo passou batido.

 


 

Por sorte, resolvi dar uma ouvida com mais calma. Isso foi há um mês. Desde então, os sete últimos CDs do Thee Oh Sees estão em altíssima rotação aqui em casa. E a coisa está chegando às raias da obsessão (quando você para de ouvir o novo do Bowie e guarda para mais tarde o último do Flaming Lips, sabe que a coisa é séria).

Thee Oh Sees vêm de São Francisco, devem ter passado boa parte da vida ouvindo Gun Club, Birthday Party e Cramps, e fazem o som mais empolgante que ouvi nos últimos tempos.

 


 

Gosto de tudo na banda: o minimalismo lo-fi à Gories e Mummies, a psicodelia pantanosa à Cramps e Gallon Drunk, as guitarras surf à Man or Astro-Man?, o pé na lisergia sessentista à Brian Jonestown Massacre, a pegada pop dos vocais, a influência dos girl groups de Phil Spector, uma certa ambientação cabulosa nas músicas mais lentas, um pouco de eletrônica old school.

Nem tudo é caos no mundo do Thee Oh Sees. Os caras também fazem umas músicas mais lentas, têm senso de humor e, aparentemente, gostam de um cinema B. Esse clipe da faixa “Minotaur” fez sucesso até com as crianças aqui em casa. Aproveite…

 


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O império das babás

Costumamos frequentar uma praia perto de casa. É uma praia pequena e nunca fica cheia. Tem um quiosque com ótimos frutos do mar e que não tem som ambiente. Perfeita.

Na praia, há um pequeno condomínio de quatro casas, que o dono aluga para fins de semana e feriados. Dia desses, um grupo de cinco ou seis famílias alugou todas as casas.

Eram famílias jovens. Os pais deviam ter por volta de 30 anos. Todas as famílias trouxeram os filhos. Além das crianças, trouxeram também um batalhão de babás. Contamos oito.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A cena chegava a ser cômica: de um lado, os pais tomando cerveja na praia. A alguns metros, os filhos brincando com as babás, todas vestidas de branco. De vez em quando, um pai se dignava a ir lá, pegar o filhão e tirar uma foto, para logo depois voltar ao papo com os amigos.

Dali a pouco, chega um barco, que eles haviam alugado para um passeio. Todas as crianças foram levadas até uma pequena piscina dentro do condomínio. Ouvi uma mãe comentando com outra: “Se o Fefê vê a gente saindo, abre o berreiro!” Os pais saíram para o passeio de barco, deixando as crianças numa piscina minúscula, atendidas por oito babás.

Essas coisas nunca deixam de me surpreender. Será que os filhos não gostariam de passear de barco? Visitar ilhas? Mergulhar? Um pai não acha divertido fazer isso acompanhado dos filhos?

Também entendo que babás sejam necessárias, especialmente para casais que trabalham fora. Não é só herança cultural e social brasileira, mas resultado também de nossa legislação.

Dia desses, um casal de amigos alemães contou que cada um teve um ano de licença remunerada do emprego quando nasceu o filho. Além disso, a escola da criança era em período integral e os horários casavam com os horários de trabalho deles. Ou seja: eles podiam levar e buscar a criança na escola. No Brasil, o pai tem uma semana de licença-paternidade e a mãe tem de quatro a seis meses.

Independentemente das leis, acho impressionante como as pessoas usam babás como “muletas”. Parece que não conseguem viver sem elas. Tudo bem usar os serviços de profissionais durante a semana, mas num sábado de sol? Na praia?

Quantas vezes não fomos tomar café numa padaria, num domingo de manhã, e vimos mães jovens falando ao celular enquanto a babá passa manteiga no pãozinho da criança? Ou babás levando crianças ao teatro enquanto o pai compra um tênis novo no shopping? Dá para imaginar que tipo de cidadão está nascendo desse distanciamento?

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