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André Barcinski

Uma Confraria de Tolos

Perfil André Barcinski é crítico da Folha.

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E não é que Phil Spector desafinou?

A expectativa era grande: um filme sobre Phil Spector, estrelado por Al Pacino e escrito e dirigido por David Mamet. Foi exibido pela HBO sábado e será reprisado diversas vezes nas próximas semanas.

Mas que decepção: o que poderia ter sido um mergulho na mente atormentada de um dos maiores gênios do pop virou um telefilme policial de quinta categoria.

 


 

Se você não conhece Phil Spector, leia este texto, que fiz há alguns meses.

No filme, Al Pacino interpreta Spector e Helen Mirren (“A Rainha”) faz Linda Kenney Baden, a advogada que o defende.

O destino de Spector não é segredo: ele foi condenado a um mínimo de 19 anos de cadeia pelo assassinato de Lana Clarkson, uma garçonete. Spector levou Lana para seu “castelo” e a matou com um tiro.

Se o fim da história já é sabido, por que David Mamet resolveu fazer um filme “de tribunal”, tentando criar suspense? Não teria sido mais desafiador e bacana tentar explicar o que levou Spector a ser o que é?

A vida de Phil Spector foi marcada por extremos: no campo profissional, só triunfos: nenhum produtor da história da música pop chegou perto da sua genialidade e inventividade. No campo pessoal e afetivo, sua vida foi uma sucessão de tragédias: o pai cometeu suicídio em 1949, quando Phil tinha 10 anos. Seu casamento com Ronnie Spector terminou em brigas e processos. Phil virou um recluso, morando num castelo em Los Angeles e colecionando armas.

Tudo isso é dito em “Phil Spector”, mas não explorado. Há UMA recriação de uma cena do passado de Spector, a famosa história em que ele deu um tiro no teto do estúdio, para chamar a atenção dos músicos.

Ninguém estava esperando um documentário sobre Spector. Este já existe e é muito bom: “The Agony and Ecstasy of Phil Spector” (2009), de Vikram Jayanti. Mas David Mamet bem que poderia ter tentado explorar a psique de Phil Spector, em vez de ficar falando de provas, sangue e balística. Isso já foi decidido. O que ninguém consegue explicar até hoje é de onde veio Phil Spector.

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Mário Sérgio e Roger: o corporativismo entra em campo

Não é segredo que o jornalismo esportivo sofre demais com o corporativismo de boa parte da mídia. Mas dois exemplos recentes mostram como o problema chegou a um estágio tão arraigado que muita gente está vendo o corporativismo como uma coisa “normal”.

Há alguns dias, num debate no canal Fox Sports, Mário Sérgio se irritou quando seu colega Rodrigo Bueno criticou o nível dos técnicos do futebol brasileiro. Sacando o velho argumento de que “você nunca foi técnico”, Mário Sérgio, ex-jogador e ex-técnico, tentou desqualificar a opinião de Bueno. Veja aí:

 


 

Anteontem, o UOL trouxe uma reportagem sobre o comentarista (e ex-jogador) Roger Flores, que estaria irritando jogadores com seus comentários ácidos (leia aqui). Sobre o volante Edinho, do Fluminense, Roger disse: “Ele precisa de um 38 pra dominar uma bola”. Enquanto torcedor do Fluminense, não só concordo com Roger, como o aplaudo. Confesso que já xinguei muito Roger na arquibancada, mas gosto demais de seu trabalho de comentarista.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os comentários de Roger não caíram bem entre os boleiros, que fizeram questão de lembrar seu passado de “chinelinho”, quando supostamente simulava contusões para não treinar e se esforçava pouco em campo.

Se Roger era “chinelinho”, isso não importa. Se Mário Sérgio foi técnico, isso também não importa. O que importa é discutir a validade dos argumentos e não esquecer os argumentos para desqualificar o argumentador.

Seguindo a lógica de Mário Sérgio, de que só ex-técnicos podem analisar o trabalho de técnicos, ninguém poderia falar mal de políticos a não ser ex-políticos. E os jogadores que lembram os defeitos de Roger no campo só poderiam ser criticados por Pelé.

Infelizmente, temos o péssimo hábito (me incluo nisso) de argumentar contra a pessoa (Argumentum ad hominem), que é uma maneira covarde e simplória de ganhar uma discussão. E as coisas só pioram quando a discussão chega às redes sociais, que são o túmulo da ponderação e do bom senso.

Li muita gente dizendo: “Quem é Mário Sérgio pra falar alguma coisa? Ele foi um técnico horrível!”, ou “Esse chinelinho do Roger não tem moral pra falar nada!”

Quer dizer que se Mário Sérgio fosse um “técnico bom”, ele teria moral para falar de outros técnicos? E se Roger fosse o Pelé, poderia expor suas idéias sem reclamações?

Curioso perceber como a maioria usa a mesma artimanha de Mário Sérgio para impor sua opinião, não?

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Filme conta a vida curta e trágica do Morphine

Às vezes, você precisa de um empurrãozinho, uma desculpa, para redescobrir certos artistas. Foi o que aconteceu aqui em casa dia desses: depois de vermos “Cure for Pain – The Mark Sandman Story”, documentário sobre a vida de Sandman (1952-1999), líder do grupo Morphine, tiramos os CDs da estante e passamos os últimos dias lembrando como era boa aquela banda.

 


 

O fim da vida de Sandman não é segredo: em 3 de julho de 1999, ele sofreu uma parada cardíaca em cima do palco, na pequena cidade italiana de Palestrina, e morreu. Sua morte acabou com a carreira do Morphine, que estava no auge do sucesso indie.

Quando o Morphine surgiu, no início dos 90, parecia uma aberração: em plena era do grunge e das guitarras distorcidas, ali estava um trio de jazz-rock formado por saxofone, baixo de duas cordas e bateria. Sandman tocava baixo e cantava letras existencialistas e crípticas, claramente influenciadas pela poesia dos beats.

Confesso que não levava muita fé no filme. Não sabia nada sobre a vida pessoal de Sandman, e a carreira do Morphine havia sido muito curta – menos de sete anos – para merecer um documentário.  Por sorte, eu estava erradíssimo: dirigido por Robert Bralver e David Ferino, “Cure for Pain” é um filme bonito e melancólico, que revela detalhes fascinantes sobre a vida de Sandman.

Sandman tinha dois irmãos e uma irmã. Ele era o mais velho e tomava conta do caçula, Johnny, que tinha paralisia cerebral. Num período de dois anos, a família Sandman sofreu duas tragédias: Johnny e o irmão, Roger, morreram. Isso abalou Mark, que decidiu abandonar tudo e sair pelo mundo.

Por sete anos, Mark Sandman vagou pelo planeta: foi pescador de atum no Alasca, trabalhou em plantações de maconha na América Central, e acabou no Brasil. O filme mostra vários cartões postais que ele enviou dos lugares que visitou. Dá para ver um da praia de Torres, no Rio Grande do Sul, e outro do Rio de Janeiro.

No filme, a mãe de Mark conta que ele ficou doente no Brasil e decidiu voltar aos EUA e montar uma banda. Não fica claro que doença ele teve em terras brasileiras. Que intrépido repórter se habilita a rastrear os passos de Sandman no Brasil e contar essa história?

O filme traz depoimentos de amigos e colaboradores de Sandman, como Josh Homme (Queens of the Stone Age), Les Claypool (Primus), Ben Harper, Mike Watt, Chris Ballew (Presidents of the United States of America) e Dicky Barrett (The Mighty Mighty Bosstones), entre outros.

Por enquanto, “Cure for Pain” pode ser achado no Cine Torrent. Recomendo demais. Não só é uma história pessoal marcante, mas fala de uma banda especial e que merece ser redescoberta.

P.S.: Sensacional: acabo de receber o e-mail de uma distribuidora portuguesa que detém os direitos do filme. Vejam se alguém consegue ajudá-los:

Temos tentando, sem sucesso, encontrar um parceiro no Brasil que esteja interessado em fazer a distribuição de DVD, TV e Video on Demand. Será que nos podia aconselhar alguma empresa e/ou contactos de potenciais interessados? O DVD sai em Portugal este mês.

 
José Alberto Pinheiro
realizador/ director de produção

VIGÍLIA, LDA
Web: www.vigilia.pt // www.facebook.com/vigiliafilmes

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O que vem depois de Feliciano?

E os vídeos com as pregações de Marco Feliciano (PSC-SP) continuam a bombar no Youtube. Os mais recentes encontrados mostram o pastor atribuindo a “Deus” o assassinato de John Lennon e o acidente aéreo que exterminou o grupo Mamonas Assassinas.

Semana passada, a “Folha” publicou uma entrevista de meu colega Fernando Rodrigues com Feliciano (leia aqui).

Acho que a questão da permanência ou não de Feliciano na Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara é simples: se ele foi racista ou homofóbico em suas declarações, não deve fazer parte de uma comissão cujo objetivo é justamente defender as minorias (sobre o tema, sugiro a leitura desse artigo de Hélio Schwartsman).

 

 

 

 

 

 

 

 

Mas vamos esquecer Feliciano por um momento. Ele não é o primeiro e nem será o último político brasileiro a misturar convicções religiosas à sua atuação política.

Acho que o país está perdendo uma grande chance de discutir uma questão bem mais importante que a permanência ou não de Feliciano na CDHM, que é a separação entre Estado e religião.

A Constituição não diz que o Brasil é laico? Então por que nossos políticos, que deveriam obedecer à Constituição, teimam em ignorá-la?

Na verdade, Feliciano é só mais um entre tantos políticos que não percebem que suas convicções religiosas não devem servir de regra para governar uma sociedade plural. Feliciano não é causa, mas conseqüência. Ele é resultado da falácia do “Estado laico” brasileiro.

Pergunto: as pessoas que pedem a saída de Feliciano estão preparadas para um Estado verdadeiramente laico? O que diriam se o governo tirasse símbolos religiosos de prédios públicos? Ou acabasse com feriados religiosos para funcionários públicos?

Acho que o caso de Marco Feliciano só assumiu essa dimensão nacional porque ele foi nomeado para uma comissão que defende pessoas que a religião dele não tolera. Mas existem várias outras religiões que não admitem a homossexualidade, e seus defensores no Legislativo continuam barrando a democracia e o progresso científico usando argumentos obscurantistas. Vamos falar sobre isso também? Ou o assunto vai se esgotar com Marco Feliciano?

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“Robert Smith mandou champanhe para o camarim!”

Meu amigo Elson Barbosa, baixista da banda Herod Layne, achou que era um trote: “Vocês não querem abrir a turnê do The Cure no Brasil?” dizia o e-mail. Pedi ao Elson para escrever um texto contando a bizarra e inesperada aventura de sua banda com o Sr. Robert Smith e cia. Aí vai o relato dele:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Do nada, chegou um email da produtora: ‘Retornar contato urgente referente a dois shows em abril’. ‘Essa produtora é das grandes’, pensei. ‘Deve ser engano’. Daí o surrealismo no reply – ‘Abrir shows do The Cure no RJ e SP. A Herod Layne teria interesse?’ Depois de nos certificarmos que não era trote nem algum esquema pay-to-play, acertamos tudo em três emails. O surrealismo só aumentava – O crivo teria sido do próprio Robert Smith, que faz questão de escolher pessoalmente as bandas de abertura dos shows do Cure. Não entendemos até agora como chegamos até ele, mas a festa foi maior que a dúvida.

Pegamos a van na quinta-feira de manhã (4/4), rumo ao Rio de Janeiro. O motorista era um figuraça – ex-puxador de samba do Salgueiro, sobrinho de Gérson, o Canhotinha de Ouro e compadre do Zico. No caminho esquematizamos toda a estratégia de guerrilha para otimizar os poucos minutos que teríamos de setup, sempre pensando no pior – banda de abertura é sempre a que mais sofre. Mas não – tivemos tempo razoável de passagem de som, iluminação, camarim, uma equipe nos tratando como uma banda grande. ‘Tô com a diretoria!’, dizia o motorista ao telefone.

Cerca de meia hora antes de entrarmos, Robert Smith apareceu para uma rápida visita no camarim. Cumprimentou a todos, conversou amenidades, disse que nos escolheu pelo material que ouviu e assistiu na internet, e que estava ansioso para ver nosso show. E ainda nos mandou de presente garrafas de vinho e champanhe. Dá pra desenvolver aqui – Não sei de nenhuma outra banda do porte do The Cure que faça algo próximo disso. Que se preocupe em se aproximar de bandas pequenas, apoiar, ceder espaços, ser cordial e gentil. Ele não precisa fazer isso. Faz porque quer, porque gosta, porque sabe o quanto o aval dele muda toda uma história.

Em São Paulo, no sábado (6/4), a história foi semelhante. Uma mega-estrutura de palco digna de um festival, toda uma equipe de prontidão para nos ajudar. Durante a nossa passagem de som, Robert Smith tirou uns minutos para visitar o camarim da Lautmusik, banda de Porto Alegre que abriria a noite, também escolhida por ele. Soubemos que a cordialidade foi a mesma, sobrando vinho e champanhe também para o nosso camarim. O brinde com as duas bandas juntas foi um dos pontos altos da noite.

Sobre os shows, causamos a reação que esperávamos – Apatia vencida por nocaute. Até pensamos em facilitar para o público do Cure, pegando um pouco mais leve. Mas quando divulgamos o show, todos os amigos da banda e do nosso selo Sinewave demandavam por barulho. Isso nos fez mudar de ideia e escolher o set mais barulhento possível. Perderíamos o fã de ‘Boys Don’t Cry’, mas a diversão seria certa. Funcionou – Amigos comentaram que viram mãos no público rejeitando a banda nas partes calmas, e diversos punhos cerrados nas partes pesadas. No Twitter e Facebook, reações indo de ‘porcaria’ a ‘puta banda fodida’. Noise era o caminho, afinal.

Já o The Cure no palco é outra história. Mandaram uma quantidade impressionante de hits, abrindo espaço para testar os fãs menos hardcore com faixas desconhecidas de álbuns mais recentes. A voz de Robert Smith continua impecável, e Simon Gallup parece ter uns 20 anos a menos,  tamanha a energia no palco. São poucas bandas que sobem até esse patamar. ‘Shake Dog Shake’, ‘One Hundred Years’ e ‘The Kiss’ foram matadoras.

Ao final do show do Cure, fomos até o camarim deles para agradecer por tudo. Trocamos ideia com Simon Gallup e com o próprio Robert Smith. Com uma atenção fora do comum, pediu instruções de como fazer uma caipirinha com a cachaça que mandamos de presente. Nosso guitarrista, um moleque mais novo que o ‘Disintegration’ (LP do The Cure, lançado em 1989), chorava diante do ídolo, recebendo um abraço apertado de despedida. Não tem como Robert Smith ser mais cool que isso.”


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Roger Ebert (1942-2013)

Quinta passada, morreu em Chicago o crítico de cinema Roger Ebert, 70. Fiz um texto para a “Folha” sobre vida e carreira de Ebert (leia aqui).

Ebert não era meu crítico preferido. Gosto mais de ler Pauline Kael ou Andrew Sarris. Mas não tenho dúvidas de que Ebert foi o crítico de cinema mais importante e influente dos últimos 30 anos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Acho que ele conseguiu isso porque foi o único a entender que, numa época de culto a celebridades, ele também precisaria ser uma para se fazer ouvir. De certa forma, Roger Ebert sabotou o sistema de dentro dele: era uma voz solitária no “mainstream”, tentando fazer as pessoas se interessarem por filmes de fora do “mainstream”.

No dia da morte de Ebert, a rádio norte-americana WEBZ pôs no ar uma entrevista curta com o cineasta alemão Werner Herzog, amigo de Ebert há mais de 40 anos. Ebert foi um defensor do cinema de Herzog e um dos primeiros críticos a elogiar seus filmes nos Estados Unidos. Ebert achava “Aguirre, a Cólera dos Deuses”, um dos maiores filmes já feitos (e eu concordo).

Ouça a entrevista de Herzog aqui. São só cinco minutos, mas dá para ter uma idéia do respeito que o cineasta tinha por Ebert. E Herzog diz uma coisa muito certa: que numa época onde a cobertura de cinema praticamente se resume a notícias sobre bilheterias e celebridades, Roger Ebert era um dos “últimos soldados” que ainda discutiam filmes. No fim da entrevista, Herzog não agüenta a emoção e chora a perda do amigo.

Sempre gostei da militância de Ebert contra o 3D e a favor do cinema independente. Ele criou até um festival, o Ebertfest, que todo ano exibia filmes que, na opinião de Ebert, não tinham recebido a atenção que mereciam.

Tenho uma história curiosa com Ebert: em 1993, fui cobrir a entrega de um prêmio de cinema. Havia um almoço para os convidados e, por sorte, fui colocado na mesma mesa de Roger e de sua esposa, Chaz. Eles tinham acabado de passar férias na Bahia e estavam encantados com Salvador.

Roger e Chaz eram muito interessados em cultura africana. Passamos um tempão falando da colonização no Brasil e da influência africana no país. Chaz queria saber tudo sobre samba. Mas também aproveitei para perguntar a Roger algumas coisas de cinema, claro: eu tinha acabado de ler uma biografia do cineasta Sam Peckinpah que contava como Roger havia sido um dos poucos críticos a elogiar “Meu Ódio Será Tua Herança”, o faroeste sanguinolento que Peckinpah fizera em 1969. Ficamos um bom tempo falando do filme e de Peckinpah.

Nos últimos anos, minha admiração por Roger Ebert cresceu ainda mais depois que ele foi diagnosticado com câncer e não deixou que a doença afetasse seu trabalho. Depois de três operações, que lhe arrancaram o queixo e o impediram de falar, Roger começou a usar um sistema computadorizado de voz que, usando arquivos digitais com sua própria voz, conseguia emitir sons.

E seu ritmo de trabalho não diminuiu. Ele parou de fazer o programa de TV, que apresentava há quase 30 anos, mas continuou resenhando filmes e escrevendo livros (o último, a autobiografia “Life Itself”, de 2011).

Ebert passou a usar seu blog e o Twitter para escrever textos pessoais sobre sua vida e sua doença. Em 2010, depois de quase morrer, escreveu esse texto, que depois reproduziu na autobiografia:

“Eu sei que ela está chegando, e não temo, porque acredito que não há nada do outro lado da morte para temer. Espero ser poupado de sofrimento nesse caminho. Sempre fui perfeitamente feliz antes de nascer, e penso na morte da mesma forma. Sou grato pelo dom da inteligência, do amor, do deslumbramento e do riso. Não dá para dizer que não foi interessante. As memórias de minha vida são o que eu trouxe dessa viagem. E não preciso deles, para a eternidade, mais do que preciso daquele pequeno souvenir da Torre Eiffel que eu trouxe de Paris.”

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Todas as neuroses de Woody Allen

Se você gosta de Woody Allen, já tem programa para hoje: a partir de 16h35, o canal MAX exibe as duas partes de “Woody Allen – O Documentário”, um filme de mais de três horas de duração sobre a vida e obra do cineasta, autor e comediante. O filme será reprisado na 2ª, dia 8, às 19h55.

 


 

Assisti à primeira parte do filme, que conta a vida de Allen desde o nascimento até a filmagem de “Interiores” (1980). O documentário é muito bem feito e interessante, com ótimas imagens de arquivo e entrevistas bem realizadas com Allen, familiares e colaboradores.

Gostei especialmente do início do filme, que relata a infância de Allen e seu começo no showbiz. Gênio precoce, Allen mandava piadas para famosos colunistas de jornal nos anos 50, e assim conseguiu emprego, aos 17 anos, escrevendo para comediantes como Herb Shriner e para programas de TV de Johnny Carson e Sid Caesar.

É emocionante ver Allen falando sobre a emoção de ser contratado para escrever textos para Sid Caesar, quando dividia o trabalho com gênios da comédia como Mel Brooks e Danny Simon.

No início dos anos 60, Allen começou uma carreira na comédia “stand up”. Charles H. Joffe e Jack Rollins, que foram seus empresários por mais de 50 anos, contam que Allen demorou muito a vencer sua timidez de subir no palco, e que eles precisavam empurrá-lo, literalmente, para a frente da platéia.

Seu humor seco e minimalista demorou a ser aceito pelo público. De certa forma, Allen era o “antiperformer”: quase não se mexia no palco, não fazia imitações e não usava a comédia física. Parecia querer que o público prestasse atenção no texto, e não nele.

O documentário mostra a incrível evolução de Allen no cinema: de diretor de comédias divertidas e rasas como “Bananas” e “o Dorminhoco” a autor de sátiras sofisticadas e tipicamente nova-iorquinas como “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” e “Manhattan”.

Algumas entrevistas são fantásticas: o grande fotógrafo de cinema Gordon Willis, na época conhecido como “Príncipe das Trevas”, pelo estilo soturno e escuro que imprimiu a filmes como “O Poderosos Chefão”, fala de sua longa colaboração  com Allen, e de como eles criaram o clássico visual preto e branco de “Manhattan”, especialmente a cena antológica em que Diane Keaton e Woody Allen vêem o sol nascer, sentados num banco próximo à ponte Queensboro.

O filme traz várias cenas que eu nunca tinha visto, como imagens de bastidores da filmagem de “A Última Noite de Boris Grushenko”, em que Allen não consegue segurar as risadas com a interpretação de Diane Keaton, e trechos de apresentações de “stand up” de Allen em casas noturnas. “Ontem eu usei, pela primeira vez, um contraceptivo oral”, diz o comediante. “Perguntei a uma garota se ela queria fazer sexo comigo, e ela disse ‘não’.”

P.S.: Este texto estava pronto e agendado para publicação quando veio a notícia da morte do grande crítico de cinema Roger Ebert. Farei um tributo a Ebert semana que vem.

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Tragédia do ônibus no Rio: a culpa é coletiva

Quando li a notícia sobre o acidente com o ônibus da linha 328, que na tarde de terça-feira voou de um viaduto na saída na Ilha do Governador e caiu na Avenida Brasil, matando sete pessoas e ferindo várias outras, minha primeira reação foi: como um acidente desses demorou tanto a acontecer?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Durante cinco anos, peguei quase diariamente o ônibus da linha 328 (Castelo- Bananal). Eu morava na Ilha do Governador e estudava no centro do Rio. E qualquer um que anda naquela linha sabe que os perigos são muitos. A Avenida Brasil é uma terra de ninguém, em que ônibus, carros e caminhões disputam o asfalto com ferocidade.

Seria leviano culpar alguém nesse momento. Vai levar um tempo para a perícia descobrir os motivos do acidente. Mas desastres assim raramente são culpa de uma pessoa só. Na maioria das vezes, são resultado de um acúmulo de incompetências.

Como um ônibus que tinha 47 multas registradas e o licenciamento vencido desde 2011 estava rodando? A grade de proteção da ponte estava em perfeitas condições? A fiscalização de trânsito estava atenta para excessos de velocidades de veículos? O ônibus estava acima do limite de velocidade? Há quantas horas o motorista estava trabalhando? Houve uma briga entre um passageiro e o motorista? Tudo isso precisa ser esclarecido.

O acidente escancarou também uma verdade que não pode deixar de ser discutida: a velocidade absurda com que ônibus e táxis circulam pelo Rio de Janeiro.

Cansei de pedir a motoristas de táxi que diminuíssem a velocidade. Quem pega um táxi na Rodoviária Novo Rio, especialmente à noite, sabe a insanidade que é. Outro dia, praticamente tive de implorar a um motorista, que voava a 100 por hora dentro do Túnel Rebouças: “Por favor, meu amigo, quero chegar vivo em casa.”

E os ônibus no Aterro do Flamengo? Assim que entram na Praia de Botafogo e sabem que têm trânsito desimpedido até o MAM, os ônibus aceleram como se estivessem largando em Silverstone.

Claro que o problema não se limita ao Rio de Janeiro, mas acho que o trânsito caótico de São Paulo impede que os ônibus circulem em velocidades tão altas.

O que não quer dizer que usuários de transporte coletivo em São Paulo tenham vida tranqüila. Certa vez, peguei uma van subindo a Teodoro Sampaio, em Pinheiros. O motorista estava tão distraído, que avançou o sinal (ou farol, como dizem os paulistas) no cruzamento com a Doutor Arnaldo, um dos mais intensos da região. Os passageiros começaram a gritar, e por pouco a van não foi atingida por um ônibus.

O motorista parou a van em frente às barracas de flores no Cemitério do Araçá e teve uma crise de choro. Nunca vi nada igual. Soluçando, disse que estava trabalhando há não sei quantas horas e que estava dormindo de olho aberto. Saí na hora da van e peguei um metrô.

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Mudhoney e a alegria de ser “pequeno”

Nick Cave e David Bowie me desculpem, mas pintou outro disco para disputar o CD player aqui de casa: “Vanishing Point”, o novo do Mudhoney.

É o nono disco de estúdio do Mudhoney e, ouso dizer, o melhor desde “My Brother the Cow”, de 1995. Fora que tem a música mais legal do ano e com o clipe mais divertido que vi em muito tempo: “I Like it Small”. Veja aí…

 


 

Se eu fosse CEO de alguma empresa de tecnologia e estivesse lançando um tocador de MP3 micro-mini-nano, pagaria um milhão de dólares ao Mudhoney para usar essa música no comercial.

E o clipe? Não sei quem teve a idéia, mas parabéns, você é um gênio: filmado em apenas um “take”, é cinema de guerrilha, lo-fi, divertido demais e com um espírito festeiro que me alegrou todas as vezes que o assisti.

Sempre achei Mark Arm um letrista subestimado. O cara tem um humor seco como o deserto, e “I Like It Small” é seu magnum opus: uma declaração de intenções, bem humorada e sem um pingo de ressentimento, sobre a alegria de ser “pequeno” em um mundo onde todos querem ser grandes e poderosos.

“Produção mínima / ações baratas / ambientações simples / apelo limitado / porões enfumaçados / temporadas curtas / baixas expectativas / O que foi que eu fiz? (…) Eu não preciso de uma Magnum / um cano curto me satisfaz / E a qualquer hora, prefiro G.G. Allin / a Long Dong Silver”.

A letra me parece uma piada com a suposta “falta de ambição” do Mudhoney, uma banda que sempre ficou feliz com o que conquistou. Os caras têm 50 anos, famílias e empregos fora da banda: o baixista Guy Maddison é enfermeiro, o guitarrista Steve Turner vende discos raros no Ebay, e Mark Arm trabalha no setor de vendas pelo correio da sub Pop – se você pedir um disco, tenha certeza de que foi Mark que embalou.

Já escrevi isso antes: se fossem “espertos”, eles teriam dado um tempo depois da morte de Kurt Cobain e voltado uns cinco ou seis anos depois, ganhando fortunas para tocar nos Coachellas da vida.  Mas não é a deles. Outro dia, a Sub Pop calculou que, em 25 anos de carreira, o Mudhoney vendeu um total de 500 mil discos. Só para comparar, “Nevermind” vendeu entre 30 e 35 milhões. E está tudo bem.

E agora, com um documentário na praça (“I’m Now”, com várias cenas filmadas no Brasil), uma biografia a caminho, escrita pelo jornalista inglês Keith Cameron, e um disco que está sendo considerado um dos melhores da carreira da banda, será que o Mudhoney finalmente vai parar de ser chamado de “sobrevivente do grunge”, como se fosse um pecado continuar fazendo o que gosta?

 

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Se você não esquece os anos 80, a culpa é de Russel Mulcahy

Eu sei, o horário é ingrato, mas é para isso que existe o botão “REC”, não é mesmo? Amanhã, quarta-feira, às 16h, o canal BIS reprisa o documentário “Video Killed the Radio Star” sobre o diretor australiano Russel Mulcahy. Para quem se interesse pela história dos videoclipes, é imperdível.

Cinéfilos conhecem o australiano Mulcahy da série de filmes “Highlander”. Meu filme predileto dele é “Razorback”, um terror trash sobre javalis gigantes que atacam moradores do deserto australiano. Gostei tanto que vi duas sessões seguidas no saudoso Cine Marrocos, em São Paulo.

 


 

Antes de ficar famoso com “Highlander”, Mulcahy foi um requisitado diretor de videoclipes. No início dos anos 80, só dava ele: dirigiu uma penca de clipes – ele calcula mais de 400 – para Duran Duran, Elton John, Billy Joel e Rolling Stones, e fez clássicos absolutos dos primórdios da MTV, como “Bette Davis’ Eyes’ (Kim Carnes), “True” (Spandau Ballet), “Total Eclipe of the Heart” (Bonnie Tyler), “The War Song” (Culture Club), “Turning Japanese” (The Vapors), entre outros.

O primeiro videoclipe exibido na MTV, em 1981, foi “Video Killed the Radio Star”, do Buggles, dirigido por Mulcahy.

O programa é divertido demais. Mulcahy é uma figuraça e fala sem rodeios sobre os problemas que teve nas filmagens. Conta que Rod Stewart estava tão bêbado nas filmagens de “Young Turks” que se trancou no camarim e só saiu quando Mulcahy concordou que ele filmasse de óculos escuros, para esconder a ressaca.

Quando fez o clipe de Kim Carnes, “Bette Davis’ Eyes”, Mulcahy atraiu a atenção de muita gente de cinema e publicidade. Ele conta que, um dia, sua secretária lhe deu um recado: “Russel, Steven Spielberg ligou para você, eu disse que você estava ocupado e que ele deveria ligar depois!”

Às vezes, o estilo ousado de Mulcahy não batia com a preferência dos artistas. O diretor, que era amigo íntimo de Elton John e Freddie Mercury e gostava de “apimentar” os clipes com imagens de homens musculosos com pouca roupa, conta que sempre dava um jeito de incluir “uma pitada de tensão homoerótica” em seus vídeos. Mas quando Bonnie Tyler viu uma cena de “Total Eclipse of the Heart” em que vários rapazes sem camisa são atingidos por jatos d’água, chamou Mulcahy de “pervertido”. “Daí, um ano depois, ela me liga e pede para eu dirigir seu novo clipe”, diz Mulcahy. “Mandei ela se foder!”.

Mulcahy conta também como um acidente quase decapitou Stevie Nicks, do Fleetwood Mac, durante as filmagens do clipe de “Gypsy”, e outro acidente quase afogou Simon Le Bon, do Duran Duran, nas filmagens de “Wild Boys”. Le Bon diz que não lembra ter passado tanto perigo assim, mas depois pensa bem e diz: “Mas eu estava tão chapado naqueles dias que não me lembro muita coisa.”

Os clipes de Russel Mulcahy trazem um futurismo que hoje parece ridículo e cafona, mas que nos anos 80 era a coisa mais moderna e inovadora que havia na TV. Vale muito a pena ver o documentário e lembrar.

Um detalhe: é muito engraçado ver como o canal Bis traduziu para o português o nome de seu concorrente, a MTV: “canal de música”.

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